quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Vogais vagais



Os sons da língua são muitos, muitos mesmo. Muitos que têm a capacidade de produzir sentido sozinhos, outros que precisam se apoiar para serem significativos. Uma pergunta aparentemente banal para qualquer pessoa com mínimo conhecimento de sua língua materna diz respeito à diferença entre vogais e consoantes. Um cidadão comum iria direto a uma resposta assim: vogal é AEIOU; o resto é consoante.

Claro que uma resposta como essa confunde definição com exemplificação. Típico em respostas não elaboradas com profundidade. Vogal é toda emissão sonora significativa na qual não se faz necessária a atuação de nenhuma forma de bloqueio à passagem de ar pelo aparelho fonador. Para pronunciar os famosos AEIOU, fazemos apenas movimento de maior ou menor abertura da boca. Mas não fazemos bloqueio algum. Para pronunciar AEIOU ninguém junta os lábios ou estes aos dentes, nem junta a língua ao palato... enfim, ninguém bloqueia a passagem de ar para pronunciar vogais.

Ocorre que os sons vocálicos não são apenas AEIOU. Isso é fácil perceber quando se compara um paulista e um baiano falando a palavra "acordar". Enquanto um paulista pronuncia o /o/ com a boca menos aberta, o baiano o faz com a boca bem aberta, de modo que o /o/ vira facilmente /ó/, como se falasse "acÓrdar". Disso se conclui que há pronúncia aberta e pronúncia fechada para as vogais.

Mais que isso: também existem para as vogais as pronúncias apoiadas em emissão de ar também pelo nariz. Por essa razão, são chamadas de vogais nasais (aquelas que não conseguimos pronunciar quando estamos gripados). Essas vogais são representadas ora por um til (~), ora pela sequência imediata de um /n/ ou /m/. Isso se vê facilmente, por exemplo, na pronúncia de "sã" e "santa", na qual "sã" e "san" representam exatamente a mesma sonoridade. Pois é: há vogais nasais e vogais nasais.

A discussão poderia se ampliar se pensássemos a respeito do Y e do W, em nomes como Yasmin e Welton. E aí: são vogais?

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Tudo parte



Pode ter certeza: nada neste mundo é inteiramente original. Quer dizer: nada é único. Qualquer que seja o ser, animado ou inanimado, é composto por partes. A mais ínfima coisa que se puder imaginar também será uma composição, o resultado de um processo, um conjunto de partes. Há mundos dentro de um mundo, qualquer que seja ele. Assim é também com a gramática.

Uma gramática, este conjunto de registros de uma forma de organização da língua, divide-se em partes. As gramáticas tradicionais (tradicional é a característica daquilo que é trazido por longo tempo), de natureza normativa normalmente têm quatro partes: uma destinada à fonética/fonologia; outra, destinada à morfologia; uma terceira parte, em que se estuda a sintaxe; e uma última, que se volta para a semântica.

Quando se trata de fonética e fonologia, pensa-se nos sons que produzimos ao falar - aqueles sons que constroem sentidos. Considerando que as letras representam sons, é fácil ver como os sentidos se alteram na seguinte sequência de palavras: ala, Bala, Cala, Fala, Mala, Sala, Tala, Rala, Vala. Por sua vez, a Morfologia, cuida dos processos de formação das palavras, bem como de sua classificação. Daí é que sabemos se uma palavra dá nome, qualifica, quantifica, substitui...

As outras duas partes são a sintaxe e a semântica. Enquanto a primeira produz reflexões acerca da relação que as palavras têm entre si (por exemplo, saber se uma palavra - ou termo - é o agente, é a ação, é o resultado da ação...), a segunda cuida das relações de sentido que as palavras assumem de acordo com os contextos em que são utilizadas. Nesse sentido, é legal observar, por exemplo, o jogo de palavras de Fernando Pessoa em "navegar é preciso; viver não é preciso".  Na verdade, as partes não são isoladas entre si; antes, são partes de um todo, de modo que uma questão fonética pode ser, ao mesmo tempo, morfológica, sintática e semântica.

Neste blog, coloco-em à disposição para dialogar com quem quer que seja acerca de questões de ordem gramatical. Faço isso com muito prazer. Embora com tempo bastante reduzido, procurarei responder às questões ou questionamentos formulados. Naturalmente, críticas e sugestões serão sempre bem recebidas. Muito bem, está lançada a semente. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Disciplina é liberdade



É bastante comum que as pessoas prefiram a falta de disciplina ao conhecimento de regras e, sobretudo, a obediência a elas. Claro que poder fazer qualquer coisa a qualquer hora é uma maravilha. É gostoso. É tudo de bom. Coisa de quem está em férias totais. Mas é bom até a página 2. É bom até quando se considera que o que se pretende fazer a qualquer hora, lugar e modo, choca-se contra o que outro quer.

É assim no reino da convivência social. É assim no reino das interações linguísticas. Sim: falar e escrever são comportamentos sociais como quaisquer outros. Cada situação em que nos encontramos requer de nós o conhecimento e a obediência a uma ou outra forma de falar/escrever. Dominar diversas formas é ser linguisticamente competente. É algo que vai nos dar condições de estar em qualquer situação: da mais formal à menos, da sublime à grotesca, da técnica à familiar...

Por essa razão, conhecer as normas gramaticais propicia a possibilidade enfrentar as situações menos comuns no nosso dia a dia - as situações formais em que somos avaliados inclusive linguisticamente. Usar o registro de linguagem errado pode ser fatal. Um palavrão durante um jogo de futebol é uma coisa; o mesmo palavrão na missa de domingo é outra. Ter liberdade de variar a linguagem conforme o contexto em que nos encontramos é um grande ganho. Ser disciplinado para reconhecer e obedecer às exigências do contexto é uma porta para liberdade.

sábado, 4 de janeiro de 2014

"Não sei Português"



Não, não. Não me conformo em ouvir adultos me dizerem que não sabem Português. Que Português é língua difícil. Que a gramática tem muitas regras. Que tem mais regras que exceções e bla bla bla. Já ouvi até de aluno meu (pasme-se: aluno de pós-graduação, quase um especialista em Língua Portuguesa). Há quem confunda a língua com sua gramática, e a gramática com seu ensino.

Não dá. Aqui me parece um erro tão comum quanto o de se confundir o personagem com o ator. Nesse caso as pessoas transferem para o profissional o sentimento (bom ou ruim) que tiveram na sua relação com o personagem no filme ou na novela. Tão comum quanto confundir o autor e o eu-lírico, e daí achar que o que está escrito, por exemplo, na poesia diz respeito mesmo ao autor (à pessoa que escreveu), e não ao eu-lírico (aquela voz que fala na poesia). Pois é. Tem gente que confunde o ensino de gramática com a gramática. 

Por essa razão, é natural que muitas pessoas não gostem do modo como a gramática é ensinada, firmada prioritariamente (se não exclusivamente) na memorização de nomes que quase nunca serão utilizados na vida prática. Não. O ensino da gramática não é a gramática. Ela é mais que isso. É uma das possibilidades de sistematização da língua e está a serviço do falante/escritor para promover uma compreensão específica do uso formal e uma compreensão aberta de outros tantos usos possíveis da língua, que muda tanto quanto as situações da vida. Conhecê-la está relacionado à melhoria da qualidade de vida.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Uma gramática, o que é?

Uma primeira reflexão importante a fazer aqui (sempre brevemente) é a respeito do que é e para que serve uma gramática. Vamos ficar com a primeira parte, por hoje, porque não tenho intenção nem condição intelectual de esgotar assunto algum. Meu intuito aqui é mesmo de re-fletir. Jogar ideias para que elas voltem modificadas, transformadas em coisa nova. E boa.

Uma gramática não é anterior a língua alguma. Para ficarmos no terreno da nossa língua, a primeira gramática que foi feita para línguas daqui foi escrita por um jesuíta: Anchieta. Sim, José de Anchieta, que transcreveu os fonemas, aproximou  as letras, pensou a morfologia, a sintaxe e a semântica, sempre por aproximação (é claro) com o que ele conhecia de língua. E, cá entre nós, não era pouco. Poliglota, o rapaz. Latim, espanhol, italiano, Português eram fluentes nas mãos desse hábil escritor.

Mas, para ficarmos apenas no exemplo do jesuíta das Ilhas Canárias, a sua Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil, é um documento importantíssimo, que só passou a existir como tal bem depois de já existir a língua Tupi. Ou melhor as línguas Tupi, porque se dividiam em muitas línguas. Quer dizer, uma gramática é a sistematização do funcionamento de uma língua. Ela não é mais importante do que e nem é anterior à língua. Não é a gramática que faz a língua. Ela é apenas um retrato de um momento da organização e do funcionamento da língua.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Apresentação



As aves voando em plena liberdade na imagem deste blog não estão ali aleatoriamente. Antes expressam o coração do Blogramática Ever. Representam uma crença que tenho na linguagem como algo que pré-existe às ideias e lhes dão uma forma e uma função; revestem-nas de cargas semânticas positivas ou negativas. A linguagem é, para mim, um elemento produtor de liberdade. Logo, também pode ser de aprisionamento. De engajamento ou de alienação.

Por meio da linguagem, podemos fazer soar um conjunto de coisas boas, tais como elogios, estímulos, considerações, apoios - entre outros. Do mesmo modo, podemos fazer soar coisas ruins, como demérito, difamação, ofensa, ódio. No primeiro caso, o que fazemos é abençoar - já que soamos o bem. No segundo, por expressarmos coisas ruins, o que fazemos é amaldiçoar.

Neste blog, as palavras serão sempre para promover o bem, sobretudo, por tentar trazer breves reflexões sobre nossa língua cotidiana. Será dessa forma porque, em nossa idade, todos já dominamos a língua. Agora, se somarmos este domínio a uma compreensão mais apurada da língua (funcional, descritiva, normativa, histórica), certamente seremos mais eficientes nas interações cotidianas mediadas pela linguagem.